Sotão
Um dia espero vir a fazê-lo, ladear-me da sua companhia e escrever juntos, por páginas áridas, cortando o gelado branco com a caneta que partilhamos, derreter o manto do que em tempos foi e a maturidade impede que o volte a ser.
Assim foi, apenas um desejo deixado escapar por uma frincha de emoções, que muitas vezes julguei atiradas no frio sotão, escuro, para nossa protecção e talvez não só, sempre só. Não pude de deixar fugir um tímido riso, seria tal verdade? Os risos são frequentemente dúbeis, talvez também o tenha sido, mas a simplicidade dos acontecimentos está em quem os observa, e o meu foi simples! Um riso de júbilo, de fase ultrapassada, de serenidade, de compreensão mútua, muito sacríficio, mas mais ainda, de maturidade.
Essa mesmo, que impede que tudo volte a ser. E não o será certamente.
Espero um dia estar a lê-lo. Para mim, para todos, sozinho, acompanhado, uma vez, imensas, sussurrando, bradando, lê-lo. Para saber, vincadamente, que um riso pode conter em ele toda uma vontade de mudar, e mostrar que percebemos e compreendemos todo o caminho que leva à porta, que leva às escadas, que nos guia ao sotão, e faz clique!
Agora que vejo, tudo é mais simples, agora que vejo!
(Francisco Ferreira)

Muito bonito…”Agora que vejo, tudo é mais simples, agora que vejo!” É sempre assim,é tão bom quando vemos, quando deixamos de estar cegos, tão bom*