Negativo
Até que, então, o vejo.
O anjo dos meus pesadelos, a sombra de fundo na morgue,
a vítima inesperada experimenta a escuridão do vale.
Não há mais liberdade.
Se quiseres, poderás sempre encontrar-me,
teremos o nosso Carnaval, na véspera de Natal,
e à noite, desejaremos que não acabe nunca,
nunca acabe.
Aonde estás? Desculpa-me,
não consigo dormir, não consigo sonhar esta noite.
Preciso de alguém e sempre
a sombra volta para me assombrar.
Enquanto fixo, pasmado, conto
todas as teias das aranhas
que vão capturando alguns mais,
enfartando-se, roubando-lhes o interior.
Indeciso de te alcançar,
ouvir a tua voz da razão.
Volta e acaba com esta dor esta noite,
acaba esta noite.
Sem ti,
quente, numa caixa, sem ar, respiro.
Em fumo, o meu figurino acena.
Sem mim.
(Francisco Ferreira)

