Tuesday, June 12, 2007

Negativo

 

Até que, então, o vejo.

O anjo dos meus pesadelos, a sombra de fundo na morgue,

a vítima inesperada experimenta a escuridão do vale.

Não há mais liberdade.

Se quiseres, poderás sempre encontrar-me,

teremos o nosso Carnaval, na véspera de Natal,

e à noite, desejaremos que não acabe nunca,

nunca acabe.

Aonde estás? Desculpa-me,

não consigo dormir, não consigo sonhar esta noite.

Preciso de alguém e sempre

a sombra volta para me assombrar.

Enquanto fixo, pasmado, conto

todas as teias das aranhas

que vão capturando alguns mais,

enfartando-se, roubando-lhes o interior.

Indeciso de te alcançar,

ouvir a tua voz da razão.

Volta e acaba com esta dor esta noite,

acaba esta noite.

Sem ti,

quente, numa caixa, sem ar, respiro.

Em fumo, o meu figurino acena.

Sem mim.  

 

(Francisco Ferreira)

 

Posted by Chico at 17:04:20 | Permalink | No Comments »

Sunday, June 3, 2007

Perdidos

Lembras-te de aquela noite,

escadas brancas descendo do luar?

Elas levaram-te por espaços abertos,

ambientes desertos.

Crianças ganham altura,

em baloiços enferrujados,

partilhando um sonho

numa ilha, parecia correcto.

Mantivemo-nos lado-a-lado,

entre a lua e a corrente,

fazendo o mapa das estrelas,

perdemo-nos.

Deixamos a noite cercar-nos

a meio caminho das estrelas,

flutuamos, libertamo-nos.

Sentimos a caminhada segura ao nosso lado.

Lembras-te de aquela noite,

o calor e o riso?

As velas queimavam, embora a igreja

estivesse deserta.

Caminhamos juntos, por ruas vazias,

até ao porto.

Os sonhos podem partir,

mas ouvem cada riso.

Deixamos a noite cercar-nos

a meio caminho das estrelas,

flutuamos, libertamo-nos.

Sentimos o calor ao nosso lado.

 

(Francisco Ferreira)

 

 

 

 

Posted by Chico at 12:22:01 | Permalink | Comments (2)